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quarta-feira, 13 de maio de 2009

30 anos de um mistério sem fim

Eis o temido Sérgio Paranhos Fleury, delegado do DOPS e torturador a mando do regime militar

O primeiro de maio de 1979 já era diferente dos anteriores. Era o primeiro em anos sem o AI-5, no ABC metalúrgicos em greve desafiavam os militares. O Brasil era governador há poucos meses por João Figueiredo, o último dos presidentes militares e São Paulo estava há 2 meses sob o comando de Paulo Maluf, candidato que venceu as eleições contra a vontade de Brasília.

No epicentro disso tudo estava a abertura política. O fim das perseguições, a anistia "ampla geral e irrestrita". O país já não era o mesmo do começo da década e em mais um sinal que as coisas estavam mudando foi que no mesmo 1. de maio morria em circustâncias estranhas e mal explicadas até hoje, afogado nos mares de Ilhabela, o delegado e então diretor do DEIC Sérgio Paranhos Fleury. Símbolo máximo da tortura e do terror dos anos de chumbo do país.

DOPS

Fleury fez carreira no temido DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) que era um departamento da polícia cívil, como tantos outros. Isso até o golpe de 1964, quando o poder central resolver utilizar os DOPS estaduais para a caça de opositores armados ao regime. Nesse ambiente, pós AI-5, Fleury brilhou. Com sua equipe, liderou o "Esquadrão da Morte" e era o policial que mais mostrava serviço. O que mais prendia, o que mais torturava e também contava com um excelente sistema de informações e informantes. Contando com o apoio logístico do exército, DOI-CODI e claro com o setor de informações do próprio departamento, comandado por Romeu Tuma.

Cooptado pelos militares, Sérgio Fleury era temido e respeitado por todos os escalões de segurança do país. Participando de importantes ações, como as mortes de Marighella e Lamarca, e desfrutando do convívio e dos segredos do alto poder do país. Fleury se tornou maior que seus superiores na Policia Cívil de São Paulo e, com a fama, criou vários inimigos.

A IDA PRO DEIC; A LIGAÇÃO TUMA-FLEURY

Da esq pra dir: Sérgio Fleury, Henrique Perrone e Romeu Tuma: Policiais do DOPS

Acusado frequentemente e em dezenas de processos sobre mortos políticos ou bandidos comuns, o Dr. Fleury sempre era inocentado das acusações. Ninguém tinha coragem de prender o "Papa" (apelido do delegado no meio policial-militar), mas mesmo assim as notícias sobre seus indiciamentos pipocavam a toda hora e constrangiam a cúpula da segurança paulista naquele 1977 em que se aspiravam as primeiras mudanças no cenário político. Por causa disso e também por atritos com outros policiais, Sérgio Fleury foi promovido a diretor do DEIC (Departamento Estadual de Investigações Criminais), saindo da linha de frente do DOPS e também das denúncias de torturas. No velho prédio da General Osório assume como diretor o delegado Romeu Tuma, que comandaria o departamento até sua extinção em 1983. Tuma e Fleury eram amigos - inimigos íntimos. Eram jovens e ascenderam à classe especial (o topo da carreira) de forma veloz. Fleury era o homem de operações e Tuma o das investigações e informações. Duelavam o tempo todo para obter o maior respeito e o comando do DOPS. Ao que tudo indica, o hoje Senador ganhou a disputa. Pois se tornou diretor do departamento, cargo que Fleury ambicionara, mas só exerceria no Deic.

Romeu Tuma é um túmulo quando se fala da sua passagem pelo DOPS. Nunca se viu nenhuma declaração dele. Parece que apagou essa passagem de sua memória. A um pedido de entrevsita sobre o assunto e sua amizade com Fleury, o senador foi enfático: "Não falarei, por motivo de agenda". Uma pena. Tuma deve saber muita coisa daquela época.


A TENTATIVA DE LIMPEZA DE IMAGEM ; A MORTE OBSCURA

Fleury acima de tudo tinha alma de policial. E a alma de um policial é sempre a de caçar bandidos e proteger a sociedade. Foi assim que ele fez a vida inteira. Seja com criminosos comuns ou com criminosos políticos. Para ele, não havia diferença. Era bandido e pronto. Livre dos comunistas do DOPS e notando a mudança dos tempos, o delegado reolveu mudar a sua imagem. De truculento e torturador para um policial ágil, eficiente e principalmente: Produtor de resultados (e dessa vez sem tortura). Durante os anos na frente do Deic, Fleury e sua equipe desvendaram miraculosos sequestros, penderam assaltantes perigosos e aumentou - e muito - a produtividade da delegacia. Estava tentando mudar sua imagem, mas talvez era tarde demais.

Na madrugada de 1/05/1979 Fleury estava em sua lancha e resolveu atravessar para a lancha de um amigo quando tropeçou, caiu e morreu afogado. Estranho, já que Fleury sabia nadar e muito bem. Além disso, por ordens superiores não se pôde fazer a autópsia no corpo do delegado. Era afogamento e pronto. Aos 45 anos morria um dos mais famosos homens do país. Seu enterro, em São Paulo, teve honras de estado, com direito ao governador Maluf e o diretor do DOPS Romeu Tuma carregando o caixão do falecido. Salva de tiros e pronto. Estava enterrado e , ao mesmo tempo, criado outro mistério dos anos militares e que dura até hoje.

TEORIAS CONSPIRATÓRIAS; FLEURY, UM POLICIAL

Desde então as teorias mais diversas povoam o noticiário e o imaginário popular. Envenenamento, tiro e outras coisas milaborantes são levantadas. Fleury tinha muitos inimigos, naqueles tempos de abertura política não seria vantajoso para os militares manter um homem tão ligado à tortura vivo e com poder. Pode ser? Pode.

Mas dificilmente sairemos dessa versão oficial. A maioria dos envolvidos na época já morreram e levaram com eles os segredos dos porões, os que estão vivos não falam. Parecem querer levar para o túmulo o que sabem. Em um país que tem medo de lida com seu passado recente, isso até que é normal.

A pergunta a se fazer é: E quantos Fleurys por aí não existiram? Quantos ainds estão vivos e não desconfiamos de seu passado. O maior erro de Fleury foi se deixar levar pelo ideário do governo de então, ua vez que aquele momento passaria e ele e sua carreira também não. O chefão do DOPS deixou-se colar sua imagem com o que havia de pior na ditadura militar. As prisões, as torturas e os porões. Com essa imagem, dificilmente o delegado escaparia daquela época. Como não escapou. Mais esperto foi Tuma e alguns outros que nunca tiveram fama nenhuma e hoje são bem vistos pela população.

Sem entrar no mérito das ações e tentando analisar o período com distância histórica. No fundo eram apenas policiais. Fleury era apenas mais um deles.

quarta-feira, 4 de março de 2009

O que sobrou do porão






Cravada entre as belíssimas estações da Luz e Júlio Prestes, no centro de São Paulo, existe um bonito e antigo prédio (foto acima) avermelhado, com vitrais antigos e muito bem cuidado. Projetado por Ramos de Azevdo (o mesmo arquiteo, que entre outras coisas, desenhou o Teatro Municipal) em 1910 o edifício foi por muitos anos o DOPS (Delegacia da Ordem Política e Social), um dos principais centros repressores da ditadura militar (1964-1985).

Para lá eram mandados todo e qualquer tipo de "subversivo", que na maioria das vezes sofriam torturas mentais e físicas, além de uma parcela deles "desaparecerem" até hoje.
Durante os anos de chumbo o Dops teve como estrela maior o Delegado Sérgio Paranhos Fleury (morto em estranhas circustâncias em 1979) e foi dirigido em sua fase final pelo então Delegado Romeu Tuma (o mesmo que hoje é senador).
O Prédio

Desde 2007 sob chefia da Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o prédio foi todo reformado e passou a abrigar a "Estação Pinacoteca". Nada mais que um espaço para obras de artes e exposições. Assim como a Pinacoteca do Estado, que por sinal fica ali perto.

Porém, o governo teve o cuidado de reservar um espaço no térreo para criar o "Memorial da Resistência", que nada mais é do que alguns painéis explicando a utilização do prédio, uma retrospectiva do finado Dops (extinto em 1983) e o único espaço que não foi reformado do prédio. Um corredor com quatro celas utilizadas pela repressão para prender e torturar.

As sobreviventes



Este corredor, da foto acima, é a parte mais tenebrosa do edifício. Que não lembra em mais nada o velho ocupante. Tudo está muito clean e reformado. Menos o corredor das celas. Ali, a luz baixa e o som de canções da década de 1960 e 1970 ajudam a tornar o ambiente mais sombrio. As celas em si são um esptáculo da tristeza. Janelas caindo aos pedaços, junto com portas jurássicas. No meio, um pilar, que provavelmente era usado como "tronco" pelos agentes. Banheiro e o que restou do banho de sol (a maioria das celas e do espaço de sol foram demolidos nos anos 80). Um clima deprimente realçado por anotações de presos políticos nas paredes.

Nessa hora, comecei a pensar em algo surreal: "E se essas portas falassem? Essas celas?" Já que os arquivos da ditadura continuam proibidos ou foram destruídos. E os agentes da repressão ainda vivos nada falam e se escondem como os "subversivos" de outra época. Por quê? É um mistério sem fim.

Na saída, vejo fotos da época em que o Dops era um orgulho nacional. Uma época de extremismos. Ou tudo ou nada. Ou amigo ou inimigo. Era amar ou deixar.

Me despeço do belo prédio com fotos. Ele não tem culpa. Foi projetado para ser a sede da Railway Sorocabana. E quantas pessoas não passam por ele e apenas o acham mais um desses "mausóleus" da cidade?

A vida continua. Mendigos dormem, bebem e xingam. Motoristas apressados. Cortiços por todos os lados. Dobro a esquina e vejo a Luz. E aquela réplica do Big Ben londrino. Ela está sempre lá, jogando luz em direção ao Largo General Osório, 66. O Dops.